Segunda-feira, Setembro 27, 2004

Meu oceano

Meu oceano
Que em mim se afogou
Fez enchente por todos os lados,
tudo transbordou
E meu peito, cheio de águas,
chorou
E minha boca, cheia de beijos guardados,
deles mesmos se alagou
E a mágoa, que deveria haver,
se dissipou
Mas por enquanto
tudo o mais se afundou
E me afundou
E eu fiquei tão inundada
tão totalmente sem ar...

À deriva o meu barco naufragou...


(Mariana Antonelli - 25/11/2003)

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Lição de casa

E quando eu chego perto da sua cor é que sinto o cheiro do arco íris. É que fervo por cada poro da minha pele - tecido aquecido e frágil.
E quando seus olhos abocanham minha boca, meio acanhada eu lhe ofereço flores plantadas no meu jardim. E mesmo que você não as aceite, dou um suspiro longo e algo branco me invade. E fico em paz.
E quando sua mão de bicho me puxa o cabelo, eu não faço questão de lutar contra. Vou ao encontro de seu comando e obedeço à necessária vaidade.
E é verdade...eu agradeço esse bem que você me faz. Cantando o duro e o morno, mostrando o frio e o azul, forçando minha cabeça sonhadora a enxergar que nem tudo é puro, que nem tudo é ouro. Mas que do bom pode-se fazer melhor. E do melhor pode-se provar. E é aí que você entra: me provando. E interprete isso ao seu próprio gosto.

Mariana Antonelli - 14/05/2003

Publicado por Marianíssima às 6:21:33 AM


Terça-feira, Setembro 21, 2004

O amor e o outono

Foi-se
feito folha seca
caída da árvore
no outono
foi-se
frio
aquele amor tão vivo
sem sono...

No seu olhar pra mim
há a ausência
de um brilho
sempre essencial.

No seu falar sem fim
faltaram vírgulas, exclamações
e veio o ponto
final.

E aquelas lembranças
tantas tranças de emoções
que traçamos juntos pelo tempo
vão caindo feito folha seca
de outono
vão-se indo sem rastros
com o vento...

(Mariana Antonelli - 19/04/2003)

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Olhos Verdes

É você
quem olha para cada
esquina escura
tudo verde
e ilumina
a vida
miúda rotina
colore
sempre
que abro a cortina
tudo muda .

(Mariana Antonelli - 27/10/2002)

Publicado por Marianíssima às 10:22:06 AM


Quinta-feira, Setembro 16, 2004

Meu Chão

Percalço
Se ando
.........Descalço
Meus pés
Não pisam
Em falso

(Mariana Antonelli 07/01/2003)

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Mergulho

Olha de novo dentro dos meus olhos de cor, mas desta vez mergulhando mais profundo que seus limites lhe impõem a cada vez que você tenta ultrapassá-los. E, por favor, mantenha-os abertos. Eles não irão arder, eu prometo. E enxergue que eu tenho tanto mar. E descubra no meu azul o lugar que desejar descobrir. Olha aqui dentro. Só mais uma vez...porque tenho essa sede de não engolir um não como resposta. Tenta sentir que seu corpo ainda molha, que seus olhos ainda alagam, que sua boca ainda saliva e que algo ainda sacia essa secura amarga na sua goela.
Depois disso, inventa que ainda há algo ventando dentro do seu suposto vazio. Não aceito o vácuo. Não aceito que você vá assim. Deixa eu lhe mostrar que ainda há algo que não foi inventado. Deixa minha boca sorrir acreditando que a cada sorriso dado, novas reações desencadearão por dentro de você. Vertendo o breu em fagulhas brilhantes, a fome de fé em um grão de esperança, o choro entalado em pranto acolhido, o oco em cheio, o olhar vazio no enxergar delirante, a fartura de cinzas em um grande arco íris de contos de fadas.
Esqueça o desarrimo das avenidas da vida e, por fim, olha pela última vez, mas agora pra minha boca balbuciante e me beija falando mudamente que há sangue ainda correndo pelas veias do seu corpo desnudo. E inunde-se toda vez que a maré ameaçar o recuo...

Mariana Antonelli 25/04/2003 (pra meu amigo J.P, de coração)

Publicado por Marianíssima às 3:47:51 AM


Terça-feira, Setembro 14, 2004

TEMPERADO

Assim só
te olho

pra imaginar
sua boca sedenta
sorvendo meu gosto...

Já passa de Agosto
e foi-se Setembro

Mas meu rosto
ainda é o resto
do seu olhar
de qualquer tempo.

(Mariana Antonelli - 02/11/2002)

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SUBSTÂNCIA: AMOR

Tomo todas as sílabas prescritas pela sua boca de cura.
Fico bem. Passo bem.
Ultrapasso a dosagem.
Abuso.
"USE COM MODERAÇÃO"
Não presto atenção.
E assim eu me extrapolo toda de você e entupo meu peito mais que devia.
"Você vicia, sabia?"

Fui ao médico do coração e ele, com o semblante sério, virou-se para mim e disse:
"Seu sintoma, minha filha: ingestão abusiva de substância química. Compulsão."
Perguntei assustada:
"O amor é substância química, Doutor?"

Mariana Antonelli 03/07/2003

Publicado por Marianíssima às 2:39:55 PM


Domingo, Setembro 12, 2004

Sen-ti-men-tal

Sem ti metal eu viro
Mente sem vida
Vida sem sal
atemporal...
eu vou seguindo....

Senti tal tempo
me vasculhar...
e se tivesse a senha
pra te mentalizar
um temporal viria me molhar.

(Mariana Antonelli 22/05/2002)

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QUE ACONTECE?

Pra onde será
que você foi

Quem te levou
nesse momento

Que contratempo
da batida no meu peito
eu te acho e ajeito
um jeito de te olhar

Aqui bem dentro
dos meus olhos tão perfeitos
mora um universo cheio
de espaço pra você ficar...

Não vá ainda
sente aqui e me escute
e se encoste por meus cantos
que eu já vou lhe encantar...

E me confesse
porque você foi embora
e me cansou com a demora
de hora em hora, ora bolas!
Sem essa de me deixar...

(Mariana Antonelli 12/09/2002)

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VEM

Vem. Não precisa medir suas forças. Vem pra cima, mira os meus olhos e congela minha imagem na sua retina. Não meça forças na hora de ir contra a minha boca e arrancar dos meus lábios um gosto ácido de amor. Vem. Não precisa esperar. Estala os dedos que eu vou a seu encontro. E depois abraça meus quadris com seus braços longos e encoste a sua cabeça na minha barriga e peça mais um carinho no seu cabelo de onda de mar. Vem. Me carrega para a praia e cuspa poesias ou qualquer coisa piegas bem na minha cara. Eu vou gostar. Depois me puxe pelo cabelo, me vire para você e diga que da minha vida o seu corpo já tomou posse. E me beba, como bebida quente, de gosto forte e adocicado. E me cheire como um perfume barato, mas viciante. E me cate por cada esquina minha com suas mãos afoitas e sedentas de paixão. E depois durma com seu rosto coberto pelos meus cabelos e sonhe comigo até que o dia amanheça na areia da praia com outro sol voyerista brilhando os nossos corpos e diga que teve o melhor sonho de sua vida.
E venha sempre. Mas nunca da mesma forma...

Mariana Antonelli - 16/04/2003

Publicado por Marianíssima às 7:12:35 PM


Quarta-feira, Setembro 08, 2004

CORPO E CACO

Preciso unir todos os cacos que pelo chão e pelo caos ficaram. Cacos de um corpo que anda calado; à sua própria boca, colado.
Preciso unir os cacos de um corpo que anda mais comum que o normal. Incomum. Insosso e, quem sabe, indiferente. Não importa.
Um copo quebrou. O corpo quebrou. E os cacos continuam espalhados pelo chão, porque não há mãos para catá-los, uni-los, colá-los.
Vassoura e pás, alguém?
Meu corpo partido em pedaços.
Meu corpo, um copo. Um copo em cacos.
E os cacos expostos ao acaso...

Mariana Antonelli - 24/08/2002

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PELE DE PAPEL

Escreva
no meu corpo
a palavra que quiser

E depois traduza tudo
em sua língua
no idioma mais perfeito
pra me ter - livro aberto -
me compreender mulher.

(Mariana Antonelli -25/10/2002)

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LANÇA-SE

Lança seus olhos perdidos e vermelhos na direção dos meus e me confesse o quanto chorou por minha ausência e por todos os erros que sua estupidez desconhecida cometeu. E me puxe com sua parca força pelo braço quantas vezes for preciso, mas sempre implorando que eu escute as tantas rosas entaladas na garganta que você tinha para me oferecer. E depois cante baixinho, em meus ouvidos, músicas sobre estrelas, céus, mares e cores e sonhos até me fazer dormir. Lança também esse corpo cansado de noites mal dormidas em cima dos meus ombros e jamais esqueça de molhá-los com saliva e lágrimas. Diga que tudo o que passamos não passou de um pesadelo e depois lança sua boca entorpecida de desejo sobre a minha, mas não espere que meus lábios correspondam à sua cena. Porque eu passei a desconfiar até mesmo dos filmes de amor, onde todos os finais são felizes.
Então me convença que seu corpo veio correndo transpirando agonia, à procura da minha pele que lhe dá algum alívio, alguma história, uma divina inspiração, mais algumas cenas, um pouco mais de vida, mais palavras bonitas que nem a boca sabe falar.
Mas ainda que eu desconfie, ainda assim, lança poemas pelo ar que eu respiro, lança afagos entre os vãos do meu corpo, lança sopros de luz nos meus olhos, lança mãos quentes no meu coração gelado, à deriva, tão exposto na vitrine da minha carne viva. E convença meus olhos de que dentro dos seus ainda resta uma verdade para ser dita. E convença minha boca de que na sua ainda resta um gosto ligeiramente doce. E convença meu coração de que o seu ainda bate por vontade própria. E convença meu corpo de que o seu não é artificial. E convença, por fim, minha dor a parar de doer. E estanca meu sangue num abraço sincero e quase sem fim.
E depois vá embora sentir o gosto da chuva que cai.

(Mariana Antonelli - 20/04/2003)

Publicado por Marianíssima às 7:28:53 PM

Impressão Digital:

26 anos.
Carioca, que adora paulista, que também se dá bem com os mineiros, que admira os nordestinos, que se diverte com os sulistas... Uma quase jornalista que é quase mais uma poetisa, metida a saber lidar com essas tais malditas, urgentes e necessárias palavras. Falo demais, escrevo demais, penso demais, choro demais, amo demais. Intensidade pode até ser um bom apelido para mim.
Mulher mística, do signo de Escorpião, com ascendente em Escorpião e lua em Câncer. Praia, amigos, botecos, livros, música, CHICO BUARQUE, e um grande amor.
Fim.

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